Parece que hoje a Dior vai oferecer sapatos por uma bagatela. Confira as condições de compra no texto a seguir:
O segundo dia de Pense Moda começa com um debate rico: “O impacto da chegada das marcas tradicionais estrangeiras no mercado de luxo brasileiro“. Números, porcentagens, estratégias comerciais, porém, tudo isso em um clima muito descontraído.
Na mesa estavam presentes Natalie Klein, proprietária da NK Store e parceira da grife Marc Jacobs no Brasil; o empresário e designer Alexandre Birman da marca que leva seu nome e integrante do Grupo Arezzo; Daniela Cecilio, diretora no Brasil do site de vendas Farfetch; Fernando Pimentel, diretor Superintendente da ABIT (Associação Brasileira da Industria Têxtil); Richard Barczinski, diretor de Retail da JHSF, concessionária da Hermés no Brasil e Rosangela Lyra, diretora da Dior no Brasil.
A editora da Elle, Giuliana Cury foi a mediadora, e iniciou a mesa questionando:
A CHEGADA DAS MARCAS DE LUXO NO BRASIL É MESMO CONSISTENTE?

Da direita para esquerda: Richard Barczinski, Daniela Cecilio, Giuliana Cury, Alexandre Birman, Natalie Klein
Para Natalie Klein havia uma demanda reprimida pelas marcas de luxo, contudo elas aportam cautelosas. “Aqui não é igual na Russia onde dezenas de lojas são abertas simultaneamente“, compara. Richard Barczinski concorda e Alexandre Birman completa: “essa demanda reprimida também é muito grande fora de São Paulo, em cidades como Rio de Janeiro, Brasília e Belo Horizonte“.
Fernando Pimentel cita duas frases para justificar a prudência das grifes que se instalam por aqui: “O Brasil não é para amadores” e “O Brasil é tão imprevisível, que até o passado é incerto”. E avisa que só agora o país “começa a ficar normal”, se referindo à economia estável . E antecipa que para a Indústria Têxtil Brasileira a entrada das marcas de luxo no país não é uma ameaça, uma vez que representam uma fatia muito pequena do mercado consumidor total (cerca de 2%).
A Dior é um exceção, porque está no país desde 1959, já como filial. Rosangela Lyra conta que a marca chegou por aqui em 1959. “Havia até a brincadeira: os jesuítas foram evangelizar os índios e Dior vai vesti-los”, diverte-se. Sobre a chegada da concorrência afirma : “agora é um caminho sem volta”. O Brasil está no mapa da expansão. Porém, não para a Dior. Com apenas uma loja no país, pretende permancer assim. “Dá até raiva quando penso que na China abrindo 40 lojas da grife”, brinca.

da esquerda para direita: Fernando Pimentel, Rosangela Lyra, Natalie Klein, Alexandre Birman, Giuliana Cury e Richard Barczinski
DIFICULDADES NA IMPORTAÇÃO
Um dos principais empecilhos para as marcas desembarcarem no Brasil são os impostos. Fazer a operação (leia-se sem sonegar) implica em taxas que ultrapassam 100% o valor original do produto. Natalie Klein alerta que se paga um imposto sobre um produto industrializado (IPI) mesmo quando a fábrica é na França. Outro problema apontado pela empresária é a demora na importação. “A moda é perecível, não podemos esperar dois meses uma coleção chegar”. Ela cita um divertido caso da importação de um fecho em forma de coração para a manutenção de uma bolsa da grife Luella, que ficou seis meses parado na ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), confundido com um coração humano (oi?).
COMPRA PARCELADA
A mediadora questiona por que com tantos fatores contrários o Brasil vem apresentando bons resultados no setor. A resposta está na compra parcelada. O país é um dos únicos que divide em vezes peças de luxo em 10 ou mais vezes sem juros. Rosangela afirma que além disso há um “tratamento de princesa” e Natalie completa falando da oferta da manutenção continuada da peça , serviço que não é garantido no exterior.
Barczinski lembra ainda que a consumidora local compra por emoção: “a gente é latino, emotivo” e avisa que está impressionado com o grau de informação de moda dos brasileiros. Já a dona da NK Store considera que a brasileira ainda é uma iniciante no luxo e destaca que a busca por esta ou outra marca vem com o tempo, e com um apuro do olhar. “A marca que melhor faz a iniciação ao luxo é a Louis Vuitton, só depois o tempo a pessoa vai entrar na Hermès“, ensina.

E-COMMERCE
Considerando as dimensões continentais do Brasil. As vendas on-line parecem uma caminho óbvio, como bem observou uma das perguntas da platéia. Contudo, ainda há resistência do brasileiro no consumo virtual, por medo, e por uma falta de legislação específica. “Somente agora o Procom aceita reclamações de compras via internet”, destaca Giuliana Cury. Outro ponto levantado é a questão sensorial, que só a experiência do contato do produto na loja proporciona.
Daniela Cecilio, vê no Brasil uma oportunidade grande na venda via internet, uma vez que as marcas não têm que arcar com uma estrutura e os pesados encargos de se instalarem aqui. Atualmente os produtos vendidos na Farfetch vem de lojas no exterior, mas revela que pretende conversar com lojas locais para otimizar o tempo de entrega que é de cinco a sete dias úteis.
A NK Store tem planos de estrear um site de vendas em março de 2011, Natalie Klein anuncia que estão trabalhando em ajustes jurídicos e tecnológicos para começar. A grife de Marc Jacobs, por exemplo, não libera a venda pela futura página por ter sua plataforma global de web. Lyra enfatiza que a Dior não tem planos do tipo para o Brasil e que a vendas do tipo feitas são encomendas que chegam via e-mail. “internet do tempo da carroça”, diverte-se.
A Hermès também não tem projeto regional e segue as diretrizes da matriz francesa, segundo seu diretor local. E a marca Alexandre Birman, bem como a Arezzo e Schutz, integrantes do mesmo grupo, tem planos de vendas via web em curso. Eles ainda estudam um jeito de minimizar questões de devolução, “o frete é muito caro”, pontua.

LUXO MADE IN BRAZIL
Natalie Klein afirma que ainda há pouquíssimas representantes de luxo made in Brazil. Para a empresária a marca que se propõe a esse posicionamento tem que reunir algumas características: “tiragem pequena, tradição, acabamento impecável“ e destaca que Reinaldo Lourenço, Gloria Coelho e o Pedro Lourenço são marcas nacionais que estão no caminho.
Com pouco mais de dois anos Alexandre Birman e a grife que leva seu nome foi a representante do produto de luxo nacional no debate. Sua estratégia foi começar suas vendas no exterior, concentrando forças em posicionar seus produtos em lojas de renome internacional como a norte-americana Saks e a inglesa Selfridges. Somente agora abriu no Brasil. O designer analisa que há um espaço para o mercado de sapatos de luxo, mesmo com a vinda de Jimmy Choo e a Christian Louboutin: “a concorrência é saudável“. Ele pretende conquistá-lo oferecendo serviços exclusivos e calçados sob medida. A seu favor tem a carga tributária menor e a expertise na manufatura do setor calçadista do sul do país, o que lhe propicia o valor final do produto muito menor. “Um sapato sai por R$1000,00”.
PROMOÇÃO RELÂMPAGO NA DIOR
Eis que Rosangela Lyra vende o peixe da Dior afirmando que a loja também oferece sapatos a esse valor (uma pechincha para os padrões da grife). A comoção foi total entre os presentes na mesa. O comentário gerou brincadeiras por parte de Natalie Klein e Birman ao longo da palestra, em função dos argumentos em relação as altas taxas de importação. “Fica com as suas sapatilhas de 1000 reais”, descontraiu Klein. E a diretora da grife francesa brinca: “amanhã as oito da manhã estou lá na loja com a maquininha remarcando os sapatos“.
fotos Neonico
texto: Laura Artigas